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terça-feira, 16 de abril de 2013

A cegueira do cansaço e "provas" de moto tipo Iron Butt

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Dia desses retornava pela pista, depois de virar a noite... Precisava chegar em casa antes de amanhecer! Devagar, seguia em frente, mascando um chiclete nervosamente para não dormir (dizem que mastigando não se dorme...).

Lá pelas tantas comecei a ter alucinações. Primeiro vi um caminhão do meu lado direito, disputando espaço. Até aí, tudo bem, se ao lado não fosse acostamento. Olhei incrédulo novamente, forçando a vista, e não vi absolutamente nada de caminhão. Ele simplesmente não estava lá! Depois, uma vaca comendo capim no início da faixa... Não. Nada de vaca!!! Na sequência um caminhão com suas luzes traseiras  todas acesas, iluminando as portas do baú ao meu lado esquerdo, um pouco longe, ainda. Forcei novamente os olhos e percebi que nada mais era do que um outdoor iluminado.

Comecei a me assustar. Continuasse assim, dali há pouco dormiria sobre a moto e só Deus sabe o que poderia acontecer. Parei, tomei um café e comi um pão de queijo no único posto que achei aberto àquela hora (já eram umas 3h da madrugada), e segui viagem. A parada ajudou pouco, mas me deu gás para mais 200km que faltavam.

Cheguei em casa e despenquei na cama... Por alguma razão, me lembrei das tais provas de "Iron Butt".

Bunda de quê? 

Hein???

Eu até hoje não entendo o que leva alguém a executar tal proeza. Não vejo razão para alguém almejar tal título, juntar um monte de "cerificados", mandar uma grana para uma associação estrangeira que nunca lhe viu mais gordo rechear seus cofres em troca de um papel impresso e assinado sabe-se lá por quem. Claro que como toda "prova", é certo que ela em tese existe para o provado se sentir como se vencedor fosse. Conseguiu superar-se! Venceu os elementos, as distâncias, o cansaço, tudo em prol de pilotar mais de 1600km em menos de 24 horas.Ou outras distâncias, em outros tempos.

Tá. E daí?

Daí que corre um risco tremendo de se acidentar, acabar com a própria vida. E tudo por um certificado de papel escrito que o vivente é portador de uma "bunda de ferro".

Fecha os olhos por um instante, e caminha pela rua... Agora imagina fazer isso a 100, 120 quilômetros por hora. Imagina dormir por poucos segundos, por conta do cansaço extremo. Além disso, imagine ter os olhos forçados a tal ponto que lá pelas tantas não enxergues direito, seus olhos distorçam o que você deveria estar vendo. Entre outras causas de cegueira temporária, você pode ser acometido por uma pseudo "síndrome do olho seco", atingido por "poluição luminosa", ou ser enganado por "moscas volantes", somente para citar alguns problemas e perigos relacionados com o cansaço e a pilotagem à noite.

Com tudo isso, o acordar passa a não ser mais uma certeza... 

Entendo, mas não compreendo. Entendo só porque respeito a posição de cada um. Tudo, como sempre digo, talvez simplesmente porque eu esteja ficando velho e não encontre mais razão na velocidade extrema, no ter de chegar antes, no viajar com a moto carregada até as tampas, coisa que já fiz outrora mas que atualmente me causa ojeriza.

Hoje eu acho que o importante é ir, sair e chegar. Ter o mesmo número de retornos do que de partidas. Não cheguei ao ponto de alguns amigos que param a cada quilômetro para tirar fotos, urinar, esticar as pernas. Volta e meia ainda faço as minha "loucuras" de viajar 1000, 1100 km por dia. Claro, quando ocorre, tudo por conta do maldito tempo, que sempre parece faltar, ou a vontade de chegar em casa o quanto antes.

Porém, sempre quando chego, invariavelmente acabo pensando: porquê correr tanto? Porquê rodar tanto em um único dia? Minha família, minha casa, não vão fugir... Então, qual desculpa tenho?

Enfim...

Lembre-se sempre, que andar de moto tem de ser um prazer. Pilotar cansado pode fazer com que seja a última vez que você pilota. O melhor, sempre, é ter a oportunidade de pilotar mais um pouco, de preferência no dia seguinte, descansado.

Aí então você curte prá valer a pilotagem e a paisagem!

E permite uma maior certeza de encontrar novamente a família e a todos que ama ao chegar de viagem!


Viaje sim. Muito! Mas sempre com segurança.

Até breve.



"síndrome do olho seco - diminuição da produção ou aumento da evaporação das lágrimas, causando a deslubrificação do olho, necessária à boa visão.
"poluição luminosa" -   luz excessiva proveniente de luminárias ou faróis de veículos vindo em sentido contrário que atinge nossos olhos e faz diminuir as pupilas, causando ofuscamento e diminuindo drasticamente a visibilidade noturna.
 "moscas volantes" - quando uma pessoa vê pontos, provavelmente não é fruto de imaginação. Flutuações no vítreo, também conhecidas como MOSCAS volantes, são percebidas como sendo manchas, nuvens, pontos ou teias de aranha.  


Crédito das fotos: 
Google images e foto particular

4 comentários:

  1. EXCELENTE! Parabéns.
    Grande abraço.
    Paulada.

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  2. Ultimamente, estou pensando as mesmas coisas, tenho 37 anos, e me pergunto porque de algumas atitudes como estas, pensei e tentei me convencer de:
    Emoção sobre duas rodas
    Dizer que posso para os amigos
    Ter história
    Porém, colocando na balança tenho certeza que mais vale chegar bem e chegar, do que forçar e não chegar em lugar nenhum, assim tenho como contar minhas histórias
    Abraço a todos

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  3. Ótimo texto, claro e direto. Sem tirar o mérito de quem tem o Iron Butt, mas to numa pegada mais tranquila. Comecei no motociclismo tarde (41 anos) e fui batizado por dois Velhos Lobos do Asfalto, Paulada e Jirschik, que tem me mostrado que o Motociclismo Estradeiro é Irmandade... Contemplação da Natureza... Sair e Chegar (aprendi essa agora lendo o texto)... Estender a Mão... enfim... Viver a Estrada sobre uma Moto.

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